Para o filme “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018)

Quem cria quem? Existe algo como alguém que nasce e faz nascer. Nesse espaço que se abre, existem olhos e espíritos. As mãos e o cuidado se originam e se encerram na mesma Terra, num outro Tempo.
O pensamento da Terra pensa ao ponto de não existirem almas. Não. Ao corpo que se conhece, não sobra tempo para almas. Por isso os fantasmas. Ou melhor, por isso as tentativas de fantasmas.
Os fantasmas lutando para emergir sob a superfície, lutando em nossas gargantas modernas para fazer voltar o tempo. Acotovelam-se pelas vias expressivas tentando fazer reviver memórias de bondade ou maldade. Gemidos mudos de angústia, de moralidades, de essências e monarquias. Toda uma convulsão. Mas não chegam a existir. São apenas ânsia de vômito, projeção que se engendra num ventre doente e cerebral; na dor, na suspensão abismal que emerge como refúgio no cume violento dos momentos, por um instante, para então voltarem a nada, instantaneamente. E nunca os vimos. Não nascem, não morrem, apenas furtam a vida de si mesma. São medo. São medo! Os fantasmas das pessoas, dos animais, das coisas da Terra, enfim, as faltas de pátria, os projetos de pátria. As promessas de pátria. Já não fossem suficientemente insalubres, enquanto estátuas de inexistência, esses fantasmas ainda são tristes, frustrados. Nunca chegarão a tocar, a cheirar o molhado da rua suja ou limpa da terra. Não tem línguas para sentir o que se movimenta sobre as peles e as crostas, nem mesmo tem voz para indulgir a consciência. São apenas palavras em anestesia, linguagem revolvida, convulsionante.
Enfim, não. Aqui e em qualquer realidade, exprime-se tudo, expressa-se, e a única coisa que falta, mesmo, é o valor dos fantasmas. Aqui, eles não se consagram nem se transam. Aqui não se ritualizam esses templos burocráticos, essas construções do anti-material humano!
Aqui e agora passam ondas, montanhas, frutos de existência. Concreto, abstração, problemática. Aqui é duro-mole, é fato-ficção, fricção-deslize. Aqui é a situação das mulheres, a desventura das mulheres e dos chamados homens. É o concreto e não se entende ainda o que é. Não se sabe muito, perto do que se apresenta nessa quimérica demonstração de realidade. Cidades-família, Estados particulares, casas-grandes famintas viciadas em obsessão em devoração das forças, empalhadoras dos bichos vivos. Quimera: aqui e agora as pessoas-mesa, os cantos de sala sociais, sujeira poética, potência mortal administrada pelas empresas da ordem e do progresso. É isso que se passa, é isso que se dá à existência. Aqui e agora: a Guerra sã! Guerra querida, odiada! Máquina desejante! Força das tempestades de carne e metal, onde as nuvens de cinzas se encontram concebendo raios de cor! É aqui e agora!
Ei! Você me ouve? Por favor, me ouça. Estou pedindo com todo o amor que não conheço.
Por favor! Peço-te: não se esqueça. Não fique aí, se esquecendo. Você se larga e se esquece continuamente. Rotineiramente. O metódico protocolar cassado do despachado catálogo. O semanal, a organização, o fármaco injetado nas veias, nas avenidas em coma, mantida por aparelhos celulares. É o que fazes. Fica se esvaziando em universos paralelos particulares, em nomes maternos, faltando e amando e apaixonando pseudo-úteros. É medonho! Pareces ter tentado alcançar a artificialidade máxima -a pureza - que, ironicamente, nunca existiu, assim como você. Então, eis a minha atitude: não mais te desejarei. Hoje eu fico louco, hoje eu te acuso! Tu inventas e reinventas, em forma de violência, a dor extrema de quem foi arrancado da plenitude da Mãe. Você. Você é violência. Você é Deus. Mas está ficando Sozinho, frígido. Porque esquece cotidianamente que, quem criou a vossa mercê, foi o Barro.
Então, eu te pergunto: quem cria quem?
Não me responde... Tudo bem, que a insipiência é natural. Mas não me responde e também nem chega a se afetar. Nem expressa algo!, nem movimenta parte alguma! Tirano espólio, doença frita. É porque te abandonaram a coragem e a inocência da Criança. É porque o Corpo nunca te tocou. Agora estás aí, estátua, sem mármore, liso como uma idéia, cheio de si. Residente. Certo, certificado e significado. Ficou passado.
Contudo, ainda respira-se. Que a esperança é de qualquer coloração e mais. Vai até as frequências do imperceptível, perturba até a transparência em que você(s) vive(m), fantasma. A esperança, a virgindade indomesticável das (nem) putassantas, essa ventania viçosa, de montanhas e vielas e casas abandonadas. Essa força respira (-se) e resiste e abala a estrutura. Corrói qualquer contorno, qualquer documento, taxa, medição, código... corrói até mesmo a invisibilidade que projetas. Mais do que isso, ainda mais absurdo, ainda mais mágico, ainda mais extraordinário do que isso: ela te perdoa. E te ensina. Vai ver que você foi apenas um passageiro excesso de arquitetura... Quem sabe? Quem sabe não fostes algo, quem sabe até tenhas existido! Não se saberá. E o não-saber é natural, porque é fértil. Fértil e forte.
Ouço rugidos! É a voz da língua do agora, tomando de assalto as tuas empresas, arrebentando as redes de sinais! Agora: loba!
Canina é a presença das matas e dos morros!, criando tudo que se inspira, acolhendo, de coração selvagem, até mesmo a doença abissal! Tu, ingrato fantasma, vais ter a nova oportunidade. Ainda que a eternidade se excremente completamente através da cloaca cósmica, ainda que o tempo se canse e hiberne, opaco, ainda assim terás, ó Ausência, a próxima chance para nascer, comer e brincar. Ainda poderás devir loba, viver a terra e morrer o espírito. Ainda! Sim! Porque o Possível sempre fluirá e você também virá a estar. Estaremos. Nos encontraremos. Aqui, na corrente da consistência e da continuidade absurda! Verás então que tudo, as mãos, o cuidado e o carinho, germinam e encerram seus ciclos na mesma Terra, em outro Tempo! Porque, afinal, é assim que eu posso falar de você. Só assim, havendo uma nesga de existência, podemos nos referir a você. Ah, dor secular! Doença infernal! Apenas sendo, nós, também teus filhos, tuas filhas, apenas sendo, nós, também tua cria, só assim podemos nos voltar para ti e, em gesto de grande generosidade, te matar.
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