"Besta Fera" e um projeto sombrio


Aconteceu que, quando eu ouvi este álbum, fui provocado. Intensamente, algo se instalou comigo e, já na quarta música, me sentia impelido a escrever. Não que eu tivesse a pretensão de que alguém fosse ter algum tipo de recepção da minha experiência, ou que eu consiga “transferi-la” a outros. Mas já esperava, sim, na quinta ou sexta música, que mais pessoas pudessem ter a noção do valor desse trabalho, que eu já considerava um marco. É que lembrei de um projeto sombrio, uma grave companhia minha.

O que posso dizer sobre "Besta Fera"? Que ao longo do álbum, pude sentir sua consistência, sua reciprocidade interna. Que existe integridade artística, balanço: tudo era pra acontecer do jeito que aconteceu. Eu, entre meus fones, escutava, e o corpo sonoro estava lá, diante de e em mim, inteiro e vigoroso. Nos sentimos saudáveis na própria insensatez, apropriados de nossa loucura, reconhecidos de nossa multiplicidade, de nossas alteridades. As contradições são eficazmente orquestradas e a organização é como a dos corpos, pouco como a das idéias. Mas, claro, isso é tudo um extensão da minha experiência, e não tem nenhum teor verdadeiro. Mas não importa.
Existe uma força passando pelo álbum que é anterior e mais urgente. Tentarei fazê-la em palavras. Sinto que é para se fazer notar muito nitidamente um atributo do álbum que o faz tanto como uma longa e complexa pronúncia quanto como um grito, um berro, ou uma palavra só, dita em alto e bom tom. Toda essa ambiguidade dimensional veiculada numa direção intensamente desejada e num único instante ou numa mesma era. Para fins práticos, eu já digo qual pronúncia/palavra/rugido é essa: SOMBRA(S). O alvo: o esclarecimento.

Evidencio com muita alegria essa característica, porque já era tempo. Dentro de meus pensamentos mais expansivos e pretenciosos, existe a percepção de uma urgência por uma outra estética da sombra e pela desestabilização dos signos solares e lúcidos. Então, quando percebi (inventei) que esse álbum estava aliado a esse projeto, fiquei alegre. Lembrando que não há teor de verdade aqui e que faço tudo com base em ingenuidade. Então vou fazer o seguinte: usar o "Besta Fera" como briefing, exemplo, apresentação ilustrativa de como seguir no que se pede hoje de nós (de mim) para este projeto. Ouça o álbum.

Estar aliado às sombras, do modo como o álbum está, mas também de outros modos possíveis, cria um gesto artístico loucamente ultrajante, ostensivamente brutal e decisivamente propositivo. Ultrajante porque faz crispar os rostos da mesa de jantar e perturba o ritual. Quem está esperando pela expressão do desejo de explorar o sombrio de um modo positivo? Enaltecer o dionisíaco, o baixo, o telúrico, aquilo tudo que se liga, que se confunde, que tem como meio uma subjetividade ampliada, conectada ao próprio desejo e ao animal. É um ultraje. Sublinhar as incertezas, o erro e até mesmo as vontades de inciência! Quem é lunátic_ para propor divórcio na relação com os processos de legitimação da verdade? Dar voz a suicidas?! Enfim, é a crítica ao racionalismo e o reencontro com o corpo pela instalação cuidadosa de uma atmosfera incerta.

É brutal porque, quando faz esse grito sombrio, bate de frente com as estruturas culturais que produzem tanto a direita quanto a esquerda: ambos sustentam o projeto do biopoder, da preservação das naturezas numa essência fixa, um verde (amarelo) ideal estendido num horizonte de controle da vida por meio da técnica. Nada mais fotófilo que o prolongamento ad infinitum daquilo que nomeamos como vida. E os suicidas? Enquanto discutimos para fazer o mundo funcionar, fazer o humano funcionar de acordo, o grito da besta fera mata, mutila, come, defeca e morre.
Por fim, é propositivo porque se opõe à esses projetos velhos do ocidente civilizado. Ou melhor, é propositivo porque não se opõe: se diferencia, contrasta. Dizendo melhor, não é um ataque a uma identidade. É elegante e não gasta a sua energia direcionando-a num “inimigo”, o que fomentaria uma realidade moral. O gesto de uma nova estética da sombra (e consequentemente da luz) faz da sua própria afirmação de si, de sua própria expressão no mundo, apenas existindo sem protocolos e livre para desejar, faz disso a própria ameaça a esse sistema de mundos. Para muitas, existir já é criar e provocar. Assim, consegue-se escapar das dicotomias, dos jogos estruturais e da moral para, desejando, germinar pelos ares um outro mundo, possivelmente menos reduzido/redutor. Mundo esse que não deixa de ocupar espaço existencial, desafiando assim os mundos instituídos. É, portanto, uma outra estratégia. Imagine que você não quer eliminar nenhuma pessoa da terra, porque isso não resolveria nada, mas apenas as substâncias que produzem o poder e a moral, pois isso sim seria eficaz. Você pode ser como um morcego ou como um microondas, e emitir ondas cuja frequência só desestrutura os tipos molares que você deseja. Fazer vibrar descentralizado, em rizoma, é uma tendência política que se apresenta hoje, e o álbum Besta Fera pode vir a ser um dos ressonadores estéticos.

Pequena pausa. Pois talvez tenha deixado aparecer mais o meu desejo pessoal do que algum conteúdo que esteja de fato no álbum. Talvez. Então vale também comentar alguns atributos mais formais do que eu percebi ouvindo. Pois acredito que cada atributo dessa obra, mesmo os mais específicos, fornecem pistas de como desenvolver esse projeto sombrio.

Primeiro a atenção na captação, principalmente da voz de Jards, permitindo com que a complexidade timbrística de uma voz muito terrosa e escura pudesse aparecer com facilidade no meio de tantos outros timbres e de instrumentos que trabalham no mesmo registro. Essa voz áspera, pedregosa e ao mesmo tempo lânguida, instável, lidera todas as texturas de timbres ao longo do álbum e esse conjunto promove uma paisagem sonora selvagem, cheia de grunhidos. A batida irregular, própria da técnica de violão do Jards, se aglutina aos seus estalos salivantes, criando topologias brutas, sem nenhum tipo de alinhamento ou polimento. Essas topologias em estado de "recém encontradas", cruas, alimentam de diversas maneiras o decorrer da escuta. É como se essa aliança entre os artistas e os instrumentos criassem expressões não apenas humanas, mas também animais, vegetais e minerais, equivalendo a uma paisagem inteira. Estas expressões são comuns, ainda que invisibilizadas. Estou falando do erro irredutível que persiste em qualquer resultado arquitetônico, por mais durável que ele seja. Sempre haverá uma aspereza nas pedras que polimos e usamos, um relevo sutil que escapa à nossas pretensões formais.


Pensar em sombra muitas vezes traz uma cor preta absoluta. Certamente estamos pensando na sombra em estado puro, ou algo assim. Mas porque, quando pensamos na luz, uma grande variedade de imagens coloridas nos acomete? Tudo que a sombra faz é produzir, junto à luz, os contrastes que vemos nas cores. Estas, sim, não são puras e puramente existem. São reais. Portanto é preciso que o sombrio seja tão pleno de possibilidades quanto o iluminado. No álbum, por exemplo, a exploração dos timbres intencionando o sombrio não reduziu as possibilidades. Enquanto a paleta que se espera de algo sombrio geralmente fica entre os pretos, os cinzas, um azul-triste e no máximo um verde-melancólico, a besta fera explode em cores das mais variadas, como amarelos, lilases neon, azuis brilhantes, rosas ácidos... enfim, quem ouvir pode dizer. Cada música tem uma coloração singular, sem, no entanto, fugir de um compromisso com uma estética sombria.

Aliás, mesmo dentro desse emaranhado dançante de ideias frustradas, desejos lânguidos e memórias sem sentido, as faixas parecem ser bastante coerentes. Todas, menos “Besta Fera”, parecem ter um conceito parecido na sua construção. Acredito que _s autor_s afundaram-se nesse universo que estou chamando de sombrio e, com cuidado, extraíram um motivo, um tema, enfim, um material. Pode ser uma frase melódica, uma pequena imagem poética, uma sequência de acordes, uma escala retorcida ou até mesmo um mero timbre elétrico doido. Mas apenas um para cada música. Nada mais. Não se tem uma pretensão extrativista. Esse material é então minimamente polido e assim inicia-se um processo de agenciamento profundo entre ele e os autores, criando os campos expressivos que foram gravados. Claro, esse procedimento em si não é nada novo, mas nesse álbum ele foi excepcionalmente realizado, a ponto de que em cada faixa se sente um grau de rendimento impressionante: cada material parece ter sido aproveitado ao máximo. Isso mostra um debruçamento e um respeito enormes d_s artistas diante daquilo que encontram, mesmo que seja uma coisa simples, mísera. Esse é um caminho interessante para _s criador_s de hoje, que se encontram submersos em torrentes de informações. “O poeta é o operário do precário”. Pense: todo dia passam milhões e milhões de pessoas na mesma avenida. Ninguém percebe nada ali que seja fora do normal. Até que em algum momento alguém com um corpo mais sensibilizado (tenha  trabalhado ou não para isso), caminhando confuso sem objetivo, passa e pousa, por alguns instantes, o olhar numa pequena fenda próxima a uma mancha mais escura de cimento e, vendo esse quase-nada, vive a dissolução completa de toda a normalidade. Então põe-se a escrever. Nas páginas de besta fera, parece transcorrer um texto de similar procedência.

Outro aspecto formal interessante para uma denúncia aos ecos iluministas e aos neo-positivismos de hoje, é a trajetória temática das faixas de Besta Fera. Uma espécie de jornada nada heróica, mas talvez com algum cunho espiritual ou de dissolução, desde o indivíduo até o coletivo. Em “Vampiros de Copacabana”, no começo, vive-se uma experiência em que a peculiaridade é evidenciada. É uma atenção pé no chão ao momento presente, onde uma percepção descreve uma singularidade. Mas quando se chega em “Longo Caminho do Sol”, parece que a experiência do agora é a experiência do sempre, ou de toda história humana. É como uma expansão - não de consciência, mas sim da corporeidade da qual emana a expressão. E isso sem uma hierarquização do “grandioso” acima do “pequeno”, pois todas estão equivalentes na intensidade. Equivalência de estados. Não é por falta de minúcia nem falta de macrovisão que deixamos de criar realidades.
Além disso, as duas últimas faixas parecem retornar ao corpo pessoal, numa espécie de ressaca pós-apocalíptica, o que não é nada grandioso ou heróico. Isso evidencia a preocupação em não tornar o album mais do que a expressão humilde de um estado de espírito comum. O artista não é um escolhido, um iluminado. A artista é todo ser que se deixa receber marcas do mundo, marcas estas que exigem a criação de um novo corpo, de uma nova percepção de si e desse próprio mundo. O artista é comum, é o porta voz de um sentimento comum. E comum é bastante diferente de normal.


jards


O álbum nos fornece também uma visão interessante sobre protagonismo. Nessa trajetória de que falei, temos a voz poética e cantante de Jards, que parece uma protagonista desviada, incoerente, e que, alterando ela mesma de corpo, vai atravessando diversas paisagens e mundos, que são construídos cuidadosamente pelo complexo musical. Começa em um lugar absolutamente banal, desprovido de qualquer encantamento, que escancara doença social e apagamento da esperança, mas que carrega um auto-amor quase inconsciente, sutilmente revelado. Essa voz passa por vários corpos, traça alianças no caminho, encontra entidades comunicantes e, aos poucos, vai se dissolvendo dessa individualidade num coletivo de vozes, que encara de frente o niilismo e questões profundas da existência, e ainda sem esperança, porque percebe que não sabe de muita coisa, muito menos como proceder. Aliás, não há futuro algum para esse coletivo de vozes. Falar de futuro, depois de viver tudo que se viveu, depois de experimentar os “frutos” do progresso e da civilização, seria como cuspir na cara da própria existência. Esse talvez seja um dos pontos mais radicais.

Um discurso coletivo que trabalha a questão da falta de sentido em viver. É uma leitura possível desse álbum e alguém há de concordar comigo que seria um discurso importante ao ser coletivizado. No entanto, o que é mais interessante para mim é sentir, junto de toda essa problemática no campo discursivo, um forte sentimento de amizade, de aliança e conexão. Vindo das/com as vozes, existe muito mais do que uma verdade niilista sendo dita, pois o discurso é apenas um estrato da grande expressão coletiva. São um bestiário de gestos, movimentos de diversos corpos, uma real apresentação de faunas e floras recém-nascidas e não identificadas, dançando desde as entranhas desse universo sombrio contemporâneo. Dança, teatro, pintura, além, é claro, de um texto potente. A poesia já se libertou da função de representar um discurso. Escapou disso e prosseguiu. A poesia não para. E não parar significa algo muito distante de apenas vencer diligentemente os obstáculos. Não significa também perfurar o tempo preservando uma consistência e muito menos significa purificar com atos corretos toda uma era. Não, não é heróico, ocidental. Mas também não é meditavo. Não é um lançar-se à introspecção infinita numa busca por uma pureza transcendental que estaria no silêncio absoluto. Não é o triunfo diante de um exército inimigo, mas também não é a aceitação plena e dócil de toda e qualquer realidade. Não é uma auto-indulgência egoísta, mas definitivamente não é também um ascetismo autocrata que constrange os próprios desejos em favor da iluminação total. Não é nada. É algo que está num e está sendo um lugar diferente daqueles que os sujeitos artisticos normalmente fundamentam suas direções. É algo que está agora, aqui entre nós, e de que ainda não conhecemos a espécie, a forma, o volume. Apenas sentimos essa intensidade, que se manifesta, e destas manifestações conseguimos apenas umas parcas traduções. Frases confusas, curtas, e muito erro. É o monstro autopoiético do agora, latejando no canto escuro do nosso entendimento.

Aliás, se me permitem aumentar o tom, a própria poesia, em sua não-essência, não poderia se subordinar por muito tempo a qualquer empreitada de esclarescimento do universo. Porque parte sempre de uma percepção perplexa de quão precárias são as nossas ferramentas de entender e informar o mundo (lê-se as nossas normalidades linguísticas) e do quão absurda é essa pretensão. É uma sabotagem técnica e eficaz das regras impostas pelas gramáticas (verbais, musicais, etc), das lógicas lineares, dos binarismos, das convenções linguísticas, enfim, a provocação ou a subversão dos sistemas de signos. E são sempre processos poéticos, não progressos. É assim, dissolvendo a ilusão amortizante da promessa clara do futuro, aproximando-se continuamente de um horizonte que f(e/u)nda-se no agora, que a poesia continua. Como força que desafia as formas. Conhecer essa força sem duvida é uma lucidez. Mas também há de se reconhecer que se faz necessário um pouco de loucura para deixar-se invadir por aquilo que corrói o entendimento. Essa tensão é presente entre as palavras e os sons de Besta Fera.

O que apareceu até aqui talvez ainda esteja muito distante da sua experiência ouvindo o album (isso talvez não se resolva em nenhum momento). Mas acho que falta mesmo um aspecto importante. O que eu escrevi até aqui ficou esteticamente escuro, denso e demasiadamente destrutivo. Sim, é da sombra mesmo que eu estou falando. Mas a questão é que se trata justamente da quebra desse velho modo de perceber o sombrio. Então não mais os enganarei. Porque o álbum, que estou usando como exemplo disso, certamente não se enquadra em palavras como “triste”, “melancólico”, “violento”, “destrutivo”. Mas possíveis opostos destas palavras não são fortes candidatos à descrição. Então, o que eu quero dizer com afirmar a sombra? Voltar-se para dentro, viver as próprias sombras? Talvez sim, pois não entra quase nenhuma luz no nosso corpo. Abaixo de nossas peles há um grande emaranhado de sombras envolvendo tecidos e entranhas. Porém, poderia ser também um bom e velho encarar o sombrio do mundo. O que seria esse sombrio do mundo? O projeto de dominação da vida, a instrumentalização da morte por parte dos poderes, isso seria o sombrio do mundo? Mas para mim parece que os pensamentos, as éticas e as estéticas que produziram e foram produzidas por esses poderes sempre estiveram intimamente ligados a uma supervalorização da luz. É um velho projeto, o civilizatório, o de expurgar da Terra suas sombras, suas sobras, e tudo aquilo que não seja puro e "humano" (que é "racional por natureza"). Em muitas perspectivas, estou equivocado nessa colocação. Claro, pois existem narrativas que contam essa história de uma maneira contrária, expondo as trevas que habitam no desejo humano de destruição e de poder. Que deveríamos buscar uma sanidade num equilíbrio e assim iluminar os enganos que nos privam da igualdade. Sim, estas narrativas, todas, tem consistência lógica e devem ser ouvidas. A questão é que são sempre elas. Destas já estamos abastados.

Por isso a importância da afirmação. Não nego a luz, não nego o perigo das trevas. Porque faria isso? Ficar me colocando contrário a algo? O fato de existirmos não poderia ser reduzido a nos colocarmos contrári_s. Queremos, então, afirmar algo que sentimos necessidade de afirmar. Porque enxergamos excessos e faltas, e porque desejamos, sempre, um outro mundo, partindo daquilo que nunca ou pouco foi feito. Carregamos a tentativa ingênua da criança, de inventar mundos com aquilo que se apresenta nas proximidades do corpo, que além de habilidoso, atlético e resistente, é lânguido e voraz por substâncias, por outros. Queremos dar um grito sábio pela ingenuidade.

São ingênuas as luzes-sombras de Besta Fera, assim como eram aquelas que começaram a aparecer nos momentos mais atropofágicos da tropicália. Criaturas musicais aberrantes, quiméricas, longe de qualquer pureza, comedoras de todos os mundos, possuidoras um apetite sem discriminação. Guiadas pelo sabor e pelo gosto. Pensou-se: gostamos de tocar bem, com técnica rebuscada, assim como gostamos de tocar (n)o que não sabemos ainda. Porque optar?

Gosto de pensar que existe nesse álbum, como em outros que estão nascendo recentemente, uma continuidade da tropicália e não uma tentativa de repetí-la. Bufões e palhaços, alegres como um circo, coloridas como uma celebração, caóticas como uma vida e errantes como um corpo. Ao longo de toda a escuta de Besta Fera, os ritmos, o suingue, a instrumentação voltada para a provocação e para a sedução do ouvido, convocando a sensibilidade para as partes escurecidas do corpo ganharem sua agência. Dançar sem saber dançar, mas querendo aprender ao mesmo tempo. Mas também é entender que foram os “brasileiros” que produziram a “música brasileira”, e não o brasil. Brasileiros que, apesar da nacionalidade, ouviram samba, maracatu, baião, cânticos indígenas, rock, jazz, blues, fusion, raga, mantras, jingles, sons da cidade e do sertão, delírios musicais, e tudo isso cozinhando num caldo de coentro e psicodelia. Aliás, foda-se o brasil. Que se erga uma bandeira tão grandiosa quanto a nacional para cada pessoa que nasceu dentro desse território nefasto. E, depois, que se queimem todas as bandeiras. Essa é uma tropicália que nós gostaríamos de fazer nascer.


Tentamos fazer disso um possível gesto de sombreamento de nossas vidas. Nos coloquemos para fora de nossos castelos celestiais e passemos a perceber os contornos de nossas verdades pétreas. O que estamos fazendo demais e o que nunca ou quase nunca fazemos? Para que realmente haja descoberta, nossa fala deve ficar no limite entre o que sabemos e o que não sabemos. Que há vozes inauditas emanando desde o que há de mais comum em nós e nos outros. Tentemos escutá-las. Escutar e emitir a voz que vem da rua, enquanto resquício espaço-temporal da expressão pública, o que restou de coletivo. Escutar e emitir as vozes das pessoas próximas umas às outras, de gente confusa, de gente perdida que cansou de se frustrar com promessas de missões, de nações. Unidades instituídas, normalidades funcionais, amenidades impostas. O equilíbrio, o anti-pathos! Há uma idéia de pureza imperiosa ao longo de milhões de quilômetros quadrados de terra. Olha, não sabemos com certeza se ela é boa ou ruim, mas não pode ser que tanta matéria, tanto trabalho, tanta paixão se reduza a um mesmo Mesmo! Já estamos comendo do mesmo a muito tempo. Queremos sentir outros sabores. Não é uma questão moral. É questão de gosto mesmo, de desejo. Nada mais saudável. E incontrolável.

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