e então, conseguimos, afinal, ter um pouco de cidade

(LINK) "A última palavra é a penúltima" pelo Teatro da Vertigem

Esse texto está diretamente apoiado na peça/performance do Teatro da Vertigem.
É como se não houvesse amanhã. Como se nunca tivesse havido amanhã.

O que acontece?
Porque... parece que tem algo acontecendo.
É como se eu nunca mais quisesse sair daqui.
Algo sucedeu que se permitiram expressar os desejos. Sim, isto.
Permitiu-se que os desejos se manifestassem. Pode parecer, mas isto não é algo banal. Certamente é comum. Mas que se permitam expressar os desejos de um modo mais livre, isto não é normal. É comum. É comum que hajam desejos encontrando barreiras morais, desejos se expressando do jeito que dá. Mas isso normalmente não é permitido.
Se deixam abrir a boca os desejos, não virá nada de bom nem de mau. Que as coisas começam a sair dos invólucros, a terra brota água, o céu endurece, a calçada nasce gemido como flor e como primavera maldita. É como primavera maldita.
Comum? Porque é para mim e para todas e para ti e para sempre. Quase sempre. Exceto nesse pontinho, nesse nanocosmos que chamamos "Ser". Mas se conseguimos deixar de ser um pouco, se pudermos sair do que se é... não sei. É como se deixássemos finalmente expressarem os desejos. E então eu não tenho boca, não tenho nome nem cor preferida. Absolutamente tudo se liberta de mim. Inclusive eu. E então quem fala é essa alçada, essa grande alçada, entre o "ag" e o "ra", no meio do "o". É ela que fala.

Se se permite que se expressem os desejos num momento de cidade - um imenso momento, um momento extenso, uma aventura insistentemente cidade - talvez aconteça isso, de perderem-se os contornos normais. Então todos os caracteres, todos os códigos, os signos, as letras, os números, as palavras, os RGs, todas as identidades que selam a cidade, todos esses, voltassem eles a serem forças e ocuparem matéria, intensamente numa cidade que então convulsiona porque deseja - do prazer até a morte.
A última palavra é a penúltima porque agora se faz um brotamento de alteridades.
Se existe uma infinidade de signos que circulam por aí entre nós:
"tipos", o tiozinho do bar, o empresário insensível, a mulher puta, etc;
"signos", a água, a sujeira, a pressão, a vaga de emprego, etc;
se existe essa variedade inumerável, que parece ser inesgotável, existe então uma infinidade ainda mais ampla de corpos, que se multiplicam a cada apreensão. Quando essas duas dimensões, de signos e de corpos, ambas em sua temperatura de fusão, brincam de se vestir umas das outras, bom.. é isso que eu quero. É isso que desejamos.
Parece perigoso? Pode se pensar que no caso das coisas perderem o contorno, tudo pode acontecer e nada, de fato, se estabelece. Mas é aí que se faz uma escolha. Antes de começar a brincadeira, precisamos de um lugar, um momento, um recorte. E então "tudo", essa palavra tão escrota e ao mesmo tempo assustadora, violenta e anestesiante, está consistente e solidamente acolhida pela finitude já definida, já determinada: cidade (São Paulo).
Resumindo, a última palavra é a penúltima porque, na consistência da cidade suja-limpa, feia-linda, não há nada que possa cancelar o brotamento das alteridades.


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E então vem as monstrinhas, vem as sombras humanas, as sujeiras inúteis que caminham e que não dizem nada, não sugam sangue nem apavoram crianças (pelo menos não desse jeito, "sugando" ou "apavorando", pelo menos não apenas isso). Vão brotando. É impressionante porque elas não surgem de nenhum outro lugar que não da própria rua, ou das paredes, ou do chão mesmo, ou sei lá, de algum canto onde vibram mais instensamente as cordas vocais dessa criatura imensurável que chamamos cidade. As observamos com sabor e elas nos seduzem, em sua heterogeneidade aberrante, em seus comportamentos nada dramáticos, em suas interações animaquínicas. São entidades, cyber-espíritos de concreto? São enigmas? São esfinges pós-modernas? Talvez duplamente, porque nem para concluir que são enigmas elas servem.
Não servem nem para enigmas pois, ao olhá-las, essas movimentações, ficamos com a clara impressão de que as conhecemos ou de que pelo menos sabemos do que se trata. Pensamos que já vimos isso. Ficamos, enfim, com a aposta de que elas apontam para o que nos é familiar, para algo que é, como já foi dito, comum. É o mundano. É o mundano? Mas há algo de indiscreto nelas, que não é sutil, e que aponta para o que há de mais estranho, mesmo compostas daquilo tudo que vemos no dia-a-dia, dobrando esquinas, percorrendo avenidas, ruas e mercados. A matéria do cotidiano na temperatura de fusão.

Essas expressões ambulantes são de uma intensidade que empurra o corpo. Atos afectantes. Apontam para várias direções possíveis de "ser", de "é", mas também não. São intensas, insistentemente intensas, de modo que não se consegue nem o sujeito nem o objeto, e nem mesmo o puro indeterminado. Não consegui organizá-las. Meus conhecidos não conseguiram enquadrá-las em nenhuma plataforma linguística que encontraram no mercado. Quem vai me explicar o que está acontecendo? Qual a fundamentação, a base teórica, a tradução?! Não há? Então talvez as palavras precisem morrer! Talvez o impuro seja o mais real. O que são elas, eles, estas, aquilo? Ah.
Talvez não sejam nada. Talvez sejam vários nadas diferentes. Ou talvez apenas uma única coisa que sabemos: cidade.
Pois é como uma criança. Você não precisa dar a ela muitas coisas.
"Tó, aqui. Isso é cidade". Pronto. Ela faz transmutar cosmos em uma coisinha só que ela consiga prender a atenção. E realmente não é necessário mais do que uma identidade, uma palavrinha ou coisinha só. Uma pequena extensão de fato é o suficiente para qualquer coisa. Finitudes ilimitadas. Corpo.

Diminuindo um pouco a loucura, estou falando mesmo dessa performance, "A Última Palavra é a Penúltima" (2014), do Teatro da Vertigem. É bom de se elogiar trabalho assim. Trabalho que é cuidadosa e precisamente não-organizado. Ou organizado de um jeito tão elegante, tão transado, que não parece organizado. Uma organização que está mais próxima de órgão do que ordem.
É bom também porque trata de algo e é despretensioso. Trata da vida de todo mundo, da violência, é da desigualdade, mas nós não sabemos o que fazer. Nós estamos imersos nisso e não temos uma resposta brilhante, então não temos a pretensão de fazer-nos pastores. Somos vocês, público. Dizendo de outra maneira, é tanto do combate quanto da experimentação.
Em qustão de técnica, também nada de muito extra-terrestre. É coisa de pegar e por. Pegar. Não "selecionar", "escolher", "levantar". Não. É "pegar" mesmo. Pegar os materiais de todas as espécies, desde os silábicos-números aos orgânicos-conscientes, e fundi-los com lógica de afeto e pensamento.
Nada de muito sofisticado estruturalmente, mas infinitamente intrincado e complexo, porque faz a própria matéria brilhar, em toda sua irregularidade, e não a genialidade dos autores.
Nos agrada sentir que também é um estudo do contemporâneo. Do metropolitano. Hoje, atravessando essa borda do que é ser humano, nesse clima quente e abafado e subitamente assaltado de ventanias que estamos vivendo, devemos nos lançar nessas buscas por novos gostos, algo que dê sabor às nossas línguas amortecidas. Inventar aventuras à partir das placas de plástico, dos letreiros de LED, da ansiedade e tudo que temos a nossa disposição. Intensificar a vida mesmo com esquizo-dramas, sem muita linearidade. Devemos porque queremos. Porque é o que estamos fazendo, aliás. Nós, a cidade. Estamos saindo, escapando pra dentro, pixando linhas do horizonte no muro mais banal. E até encontramos por aí frutas ainda não provadas, de cores ainda não nomeadas, com texturas que causam arrepio à linguagem. Sim, encontramos: esse vídeo é uma delas? No lugar mais comum.

E então se pode dizer, com uma grande humildade e uma experiência bem vivida: a cidade é um pouco assim. Dá para se dizer. Claro, talvez em outras épocas fosse também super possível essa fusão de corpos signos esquizo-dramas primavera maldita etc etc. Mas há uma estrela em cena que é de hoje. É a própria cena. Quer dizer, não é como se o ápice de uma contingência histórica fizesse erigir um herói falastrão e poderoso que irá descrever o seu tempo com suas ações e suas falas. É mais potente, amico mio. São inúmeros heróis. E muitos outros corpos não-heroicos também. Mas nem é essa a questão.
Quer-se conseguir dizer algo de importante. Quer-se, de algum jeito, fazer notar a importância de uma coisa desse trabalho-boca. Então, com todo o respeito desse mundo, lhes conduzo à este lugar. É isto. Estão escutando?

As pessoas passam, as pombas, os busões, o som dos aparelhos, a palpitação, as ondas eletromagnéticas... Estão sentindo isto? Quem fala aqui, essa voz cálida e calosa que escutamos, é do próprio lugar. É a boca da cidade. Seus dentes são nossos passos, sua língua nossos movimentos. O lugar de passagem, o tão, o tal. É sim algo contemporâneo. O lugar de passagem seria talvez um pedaço, um feixe de espaço, cuja ordenação - física e semiótica - programa os corpos a apenas passarem, o que acaba produzindo a não-percepção do outro. Não é apenas a escravização do ou a violência ao outro: é a não percepção. Apagamento da diferença. Esta é a maneira talvez mais eficaz de conduzir o outro à sua inexistência. Por isso a devastação do sensível. Por isso o som tão... anestésico. É claro que, mesmo com toda essa ordenação do seu apagamento, ainda se pode perceber o outro. Basta afrouxar um pouco os olhares, as narinas, destrancar as portas... Mas o que este trabalho questiona é: como é perceber o outro num lugar que é feito para que isso não aconteça? 
Bom... aí nesse espaço tempo, nessa simples provocação, nascem tensões e intenções e outras várias possibilidades não previstas. A ordenação de um lugar, como a de qualquer corpo, é seu aspecto menos vivo. E é isto: apenas um aspecto. O lugar quer falar, e muito mais se escuta.

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Enfim... Já acabou? Sim, é isto. Então, podemos novamente continuar caminhando. Estamos apenas de passagem. Não é necessário criar uma grande idéia sobre isto. Apenas continuemos. Apenas? Não... É que algo se produziu. Algo tremeu. Agora, é como se não houvesse amanhã. Agora, a diferença.
Seguimos, carregando então a marca e o espelho daquilo que se expressa através de nós. O agente-lugar, a boca da cidade vomitando e cantando primavera maldita, o lugar de passagem em seu grau mais "lugar de passagem" possível: essa é a estrela cinza da peça do Vertigem. Veja só! Talvez até se possa dizer: uma protagonista! Isso nos faz citar Gil: "nem tão pós-dramático assim", hein?

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