O presente escrito é dedicado a este grande trabalho sonoro-poético,de Leo Fazio e Vítor Marsula.
A questão é que o chip não provoca curto circuitos por sua natureza funcional. É a natureza que provoca curtos-circuitos no chip, que, ao perder o controle do silício, é preenchido novamente de corpo e de magia. Assim esperamos reestabelecer o paganismo, finalmente. Criar um obstáculo ao fim.
A cidade não para de crescer porque é deus. As ruas vão se estender até o fim do horizonte, o piche vencerá o pixo e vai comer nossas peles até que não sobre mais quem perceba a cidade virando, virando ela mesma, ela mesma um messias ícone, um avatar pós-humano, perfeito e resolvido. Nada de nuances; reinado último, universo liso, liso como uma televisão.
Moedas de metal eram fabricadas por máquinas de metal, mas apenas enquanto a moeda precisava ter aparência. Hoje sua presença vibra por todos os cantos, progredindo pelos códigos em direção à totalidade. Quando ela for puro espírito, quando a moeda transcender a matéria e libertar-se das reencarnações comerciais, dissolvendo-se em éter puro, destrinchando os sentidos, descansará o neon em nirvana químico.

Fileiras de corpos humanos, nas casas da 21ª potência, entregam seus rostos ao número redentor. Quase inúmeras, porém contáveis coleções de peles, cada uma com sua tonalidade e texturas específicas, são sacrificadas pela bênção da globalização, processo unívoco de unção do corpo pecaminoso que se chamava Terra. Espera-se assim lavar o mundo do Diabo dos Erros. O erro do Sol vai ser devidamente reparado e os planetas serão higienizados na mais divina pureza. Não restará nada além do Todo.
Mas a crueldade dessa anti-força, esse deus-formal imaterial, é tão imensurável, que escapa ao próprio infinito de suas capacidades informacionais. Este é o seu único erro. A esta crueldade não se pode conter o último gemido. Sobra, doença ou delírio, sobra uma sensação.
Entre as partes, no vão que se esquece entre os prédios e os empreendedores, existe um espaço ainda indecifrado. Nos interstícios desse robô, que imita a unidade dos hebreus cruzando o deserto, persiste um incalculável. Buracos negros nos cantos da sala-dia-dia. Há uma fricção que gera desânimo e desafina o coro das almas. Há ainda quem se sinta violentado. Há ainda um resquício de loucura.
Nestes desterritórios, sobraram amontoados de coisas vivas, ruminando a si próprias, misturando suas atribuições. Tudo que elas têm, elas fundem. Fundem seus órgãos, seus cartões de crédito, suas embalagens coloridas, o plástico, o cimento e a carne, fundem-se. Experiência devindo eco de uma força ainda perplexa, eco de um tempo acontecedor.
É produzido, então, um paganismo pós-moderno, uma feitiçaria aqui. Magia porque essas micro-diferenças, ainda que muitíssimo sutis e despercebidas, se multiplicam através de todo o espectro da existência presente. Não louvam líder nem ídolo passado, não buscam salvação objetiva, são apenas presença. Se alimentam do hoje em sua concretude mais comum e espessa, para prosseguir desejando, sem nunca se satisfazer, tampouco se castrar. Assim, não poderiam ser de outro modo que não cyber-animais, humano-prédios, trabalhando e transando em seus computadores ritualísticos. Nestas existências mínimas, se encontram alguns exemplares das expressões pagãs. Mas elas não são de felicidade ou tristeza. São convulsões desalmadas.
A essas festas assombradas onde o lixo é gente, foi dado o nome de curto-circuito. Faíscas de breve duração, delírios metálicos. Crise, na qual o semicondutor, signo do controle, se aquece demais, ganhando corpo, erro e vida. Este cântico virulento ainda geme em meio aos comas de silício que projetam a cidade. E para que aconteça algo diferente do previsto, será preciso sintetizar um horizonte entre as nossas coxas.
Comentários
Postar um comentário