o que eu vou fazer agora? pergunto-me eu enquanto fumo meu cigarro. a fumaça cobre a cara e me provoca tosse. então me lembro que não fumo cigarros, apago e jogo fora com um gosto amargo na boca. sigo andando sem rumo por estradas de terra, sentindo o sol brabo queimando meus ombros desnudos. não temo mais sair por aí em lugares desconhecidos, suar todo meu suor ou calejar minhas mãos cavando buracos e enterrando bichos mortos, nem mesmo temo a solidão - embora ainda me engalfinhe com minha velha conhecida, a ansiedade. não tenho heróis ou exemplos a seguir - talvez o mais próximo disso sejam as amizades que deixei pra trás nessa marcha fúnebre chamada vida. hoje eu acordei ouvindo o estalar de engrenagens dentro da minha cabeça e me perguntei se tudo que vivi não passou de um mero delírio. para qual efígie devo me ajoelhar pra conseguir achar um sentido nisso tudo? qual simulacro produzido em escala industrial devo deixar em minha cabeceira pra que minhas preces sejam atendidas? minhas pernas doem mas eu não sinto de parar de andar, minha cabeça se desfragmenta a medida que levanto poeira, as chinelas gastas se rompem e eu sigo descalço. o que eu vou fazer agora? os últimos cinco anos passaram como um sopro e eu ainda não sei o que faz de mim um homem ou o que me impede de viver como um animal. as vezes sinto que cheguei tarde demais no mar, que a embarcação partiu e que não há ninguém que possa me informar se alguma outra virá. penso no futuro mas não consigo imaginar nada além do que será que virá após a próxima curva da estrada. o tempo é como a maresia que corrói meu anel, mas o tempo é também o anel: sem começo nem fim. estou cansado, mas não de andar sem rumo por aí. eu sou todas as pessoas que vieram antes de mim e acumulo na cabeça a memória do mundo. mas ainda sim a estrada me convida a caminhar, e não tenho mais tempo pra esperar que ninguém venha comigo. se a vida pudesse me conceder um desejo eu gostaria de não ter desejos. que a vida me dê aquilo que eu preciso, e me deixe bem longe daquilo que eu quero.
o que eu vou fazer agora? pergunto-me eu enquanto fumo meu cigarro. a fumaça cobre a cara e me provoca tosse. então me lembro que não fumo cigarros, apago e jogo fora com um gosto amargo na boca. sigo andando sem rumo por estradas de terra, sentindo o sol brabo queimando meus ombros desnudos. não temo mais sair por aí em lugares desconhecidos, suar todo meu suor ou calejar minhas mãos cavando buracos e enterrando bichos mortos, nem mesmo temo a solidão - embora ainda me engalfinhe com minha velha conhecida, a ansiedade. não tenho heróis ou exemplos a seguir - talvez o mais próximo disso sejam as amizades que deixei pra trás nessa marcha fúnebre chamada vida. hoje eu acordei ouvindo o estalar de engrenagens dentro da minha cabeça e me perguntei se tudo que vivi não passou de um mero delírio. para qual efígie devo me ajoelhar pra conseguir achar um sentido nisso tudo? qual simulacro produzido em escala industrial devo deixar em minha cabeceira pra que minhas preces sejam atendidas? minhas pernas doem mas eu não sinto de parar de andar, minha cabeça se desfragmenta a medida que levanto poeira, as chinelas gastas se rompem e eu sigo descalço. o que eu vou fazer agora? os últimos cinco anos passaram como um sopro e eu ainda não sei o que faz de mim um homem ou o que me impede de viver como um animal. as vezes sinto que cheguei tarde demais no mar, que a embarcação partiu e que não há ninguém que possa me informar se alguma outra virá. penso no futuro mas não consigo imaginar nada além do que será que virá após a próxima curva da estrada. o tempo é como a maresia que corrói meu anel, mas o tempo é também o anel: sem começo nem fim. estou cansado, mas não de andar sem rumo por aí. eu sou todas as pessoas que vieram antes de mim e acumulo na cabeça a memória do mundo. mas ainda sim a estrada me convida a caminhar, e não tenho mais tempo pra esperar que ninguém venha comigo. se a vida pudesse me conceder um desejo eu gostaria de não ter desejos. que a vida me dê aquilo que eu preciso, e me deixe bem longe daquilo que eu quero.
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